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.:: FESTA CAIPIRA? por Leandro Araújo  

 
Por que, existe a cultura do “caipira” em nossas Festas Juninas?

Estudando o termo, percebemos que ele se refere a qualquer tipo do interior, normalmente de área rural. De acordo com o dicionário Koogan/Houaiss, caipira significa “Homem da roça ou do mato; matuto, capiau. /Pessoa tímida e acanhada. / Jogo de parada com um só dado ou com roleta, entre pessoas humildes.” Já no dicionário Antônio Olinto de Língua Portuguesa, a definição de caipira é “Habitante do campo, do interior. / roceiro, caboclo. / indivíduo tímido, acanhado. No dicionário Aurélio encontramos ”Habitante do campo ou da roça / diz-se de caipira sin. ger. jeca, matuto, roceiro, caboclo, capiau ou taboréu”.

 
Ou seja, a expressão refere-se genericamente às pessoas ligadas ao campo, geralmente em pequenas propriedades, ou então empregados de grandes propriedades, de poucas letras e pouca vivência urbana. Ora, este tipo é encontrado em todo Brasil, não necessariamente precisa figurar como o imortalizado por personagens como “Jeca Tatu”, de chapéu de palha, calças remendadas e camisa xadrez.
 

A palavra “caipira”, como é definida vocabularmente, é encontrada em qualquer região brasileira, respeitando suas características físicas, culturais, históricas e geográficas. Ligar a expressão “Festa Junina” à “Festa Caipira”, por si só já é um erro crasso, no entanto, pior ainda é ligar a expressão “caipira” à imagem que foi ridicularizada pela mídia do homem do interior, maltrapilho, ignorante e ingênuo. O estudo antropológico dos tipos regionais brasileiros já comprovou, por meio de estudos simples, que a falta de letras por parte do homem do campo não significa ignorância ou falta de capacidade de aprendizado, ao contrário, o conhecimento que detém é específico e suficiente para sua sobrevivência no meio em que se encontra. A classificação de “caipira” que nos é imposta pela mídia é exatamente contrária, retratando-o como um ingênuo analfabeto, o qual não tem roupas descentes para vestir.

Várias teorias tentam explicar a introdução desta paródia de caipira em nossas festas juninas (digo “paródia”, pois os trajes usados nas festas juninas imitam toscamente as roupas dos interioranos dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás). Porém uma das explicações traz uma força histórica muito grande:

A Revolução de 1930 e, sobretudo o golpe do Estado Novo, em fins de 1937, foram responsáveis pela propagação autoritária do sentimento de brasilidade. Através desta movimentação política, buscava-se concretizar cultural e ideologicamente a formação em curso de mercado e de indústria nacionais centrados no eixo Rio-São Paulo. Para tal, foram fortemente subjugados os sentimentos regionalistas.

Durante a “Proclamação ao Povo Brasileiro”, de 10 de novembro de 1937, Vargas denunciou o “caudilhismo regional” que, segundo o ditador, ameaçava a unidade nacional brasileira. Em gesto simbólico, mandou queimar publicamente as bandeiras regionais, ardendo, entre elas, o estandarte criado por seus antigos mestres, Castilhos e Borges, em 1891.

Em seguida, o Estado Novo promoveu a chamada “invenção da cultura nacional”, como fundamento da identidade nacional imposta. Para isso, o getulismo apoiou fortemente a seleção futebolística nacional; difundiu o carnaval, o samba, as festas juninas cariocas; financiou o surgimento de arquitetura moderna brasileira; estimulou a produção musical dos temas centrados na região sudeste brasileiro. O mais curioso, é que mesmo assim vinha descansar em suas estâncias no sul, onde era fotografado de bombacha, tomando mate e montando à cavalo como um verdadeiro caudilho. A “invenção da cultura nacional” foi uma medida política e repressiva, que buscava reprimir a cultura regional para que, desta forma, não se abrisse precedentes a novas manifestações antigovernistas. O resultado desta centralização e imposição cultural foi o início da massificação da cultura da região sudeste, que até hoje é vendida ao mundo como sendo a verdadeira e única cultura brasileira.

Podemos afirmar que até 1930 a expressão “Festa Caipira” sequer existia e também que as Festas Juninas já aconteciam na região sul do Brasil, invocando suas particularidades culturais próprias, desde que essa região começou a ser efetivamente povoada, em 1737. Se em duzentos anos de História festejou-se as datas juninas, e seus respectivos santos, através da particularidade regional de cada povo, incentivar a realização de festas caipiras, fantasiando nossas crianças de forma que ridiculariza o homem do interior, transformando-as em imitações de pequenos paulistas ou mineiros, é aplaudir o maior erro do governo de Getúlio Vargas, que tentou esmagar através da força despótica toda herança cultural regional. É lamentável, mas continuamos sendo governados por decisões arbitrárias, que a 75 anos promove a centralização da cultura nacional, ditando através da mídia o que devemos vestir, comer ou ouvir.

Mas como tentar reverter esta situação? Se continuarmos aprendendo que em “Festa Junina” nos fantasiamos de caipira, na Semana Farroupilha nos fantasiamos de gaúcho e no carnaval nos fantasiamos do que quisermos, continuaremos tratando nossa cultura como “coisa de grosso”.

A consciência de que ao vestirmos a indumentária gaúcha não estamos nos fantasiando de gaúcho, mas vestindo um traje histórico, que representa toda a identidade cultural de um povo, sua história e cultura, não deve ser imposta, mas ensinada. Respeitar a cultura regional é respeitar a própria origem, as raízes que sustentam toda organização social vigente. Com o coração triste, mas pilchado, acompanharei mais um ano onde a televisão nos enfiará goela abaixo músicas e roupas “caipiras” em detrimento da cultura regional. Pois assim, ouvindo e vendo os meios de comunicação de massa, principalmente a televisão, cegando o povo, fica muito mais fácil vender novelas, músicas e informações. E assim, cada vez mais “Égüinhas Pocotó” e “Tô Ficando Atoladinha” farão parte da cultura musical de nossos filhos.

Obs: A ilustração da chamada deste artigo é "Caipira Picando Fumo",
obra do Artista Plástico Almeida Júnior

No mais, era isto. Um fraternal e cinchado abraço,
Leandro de Araújo
Confraria de Declamadores
declamadores@yahoo.com.br

 
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