-Mouro velho, quero provar para este povo que eu sou o melhor cavalo daqui. Desafio-te para uma carreira daqui até o Cerro do Coqueiro-torto. Quem chegar até lá primeiro vence.
O cavalo velho, pastando calmamente à sombra de um tarumã, sacode a cabeça, tira a crina da frente dos olhos e com muita calma diz para o outro:
-Escuta, meu rapaz. Meu tempo de corredor já terminou. Foi uma bela fase da minha vida, onde consegui fama e enchi a guaiaca do meu dono. Mas cansei disto tudo, não pretendo mais correr.
-Como? Cansado de fama e de dinheiro? Por acaso não gostavas de ter o pelo escovado, de ter cocheira especial, pasto de melhor qualidade? De namorar as éguas mais bonitas destes campos? Isto me cheira a desculpa, o que tu tens eu sei, é medo!
Mesmo com a raiva aparente do jovem cavalo, o mouro velho manteve a calma. Ele entendia que aquilo tudo não passava de orgulho, que na verdade o que o zaino queria afirmar-se a si mesmo, não aos outros. Então, dando as costas para o jovem, foi descendo em direção à sanga mansamente, dizendo:
-Não, simplesmente não quero mais correr... se tu preferes que eu diga a todos que é melhor, não tem problema, isso pra mim não tem mais importância.
Ah! Mas o cavalo mais novo não se dá por vencido, pois sabe que a única maneira de provar que realmente é melhor é o vencendo em uma carreira. Então, resolve provocá-lo de todas as maneiras para força-lo a correr. Faz intrigas e fofocas, diz a todos que o mouro velho não tem mais a mesma força, que se recusou a correr por medo de não conseguir nem chegar até o final. O mouro, mesmo com toda paciência que a vida lhe ensinara a ter, começa a se chatear com aquilo e, de tanto ouvir a falação dos outros animais da fazenda, resolve aceitar a carreira. Afinal, seria só mais uma carreira, a última. O resultado até não seria o mais importante, pois seria a oportunidade de fazer o jovem cavalo ter paz em seu coração.
Foi o anúncio mais esperado do ano. Toda a bicharada estava lá. Um capincho velho seria o juiz de linha, e um carancho famoso por ser ligeiro, seria o juiz que acompanharia todo o percurso. Sairiam do pequeno açude atrás do potreiro e quem chegasse primeiro até o Coqueiro-torto seria o campeão.
O zaino parecia possuído, provocando todo o tempo o cavalo velho:
-Agora tu vais ver o que é correr, velho...
E o mouro, que parecia impassível esperando o sinal de largada que seria dado pelo carancho, começou a sentir algo que fazia tempos não sentia. Claro que poderia vencer o zaino, pois se a juventude não estava ao seu lado, a experiência faria a diferença. Conhecia os atalhos do percurso, onde os arroios davam o melhor vau, onde o chão era mais firme. Havia pensado muito na carreira, em deixar o jovem vencer tranqüilamente, mas quando o coração disparou e o sangue começou a ferver, o velho ímpeto guerreiro lhe reacendeu a chama dos olhos. Ao mira-los, pela primeira vez em sua vida o jovem zaino sentiu medo.
Ao sinal, os dois saíram.
Era incrível, mas os dois pareciam correr na mesma velocidade, cabeça com cabeça, cada vez mais rápidos. Logo que passaram a primeira sanga o mouro assume a dianteira, deixando o outro mais de um corpo para trás. Já passavam de uma légua quando, de repente, o mouro começa a diminuir o passo. O zaino estranha mas mantém o ritmo cada vez mais forte nas patas. Quando já abre uma boa distância do mouro começa a dar a carreira por vencida. Neste momento, o velho cavalo começa a gritar:
-Pára, zaino! Pára!!!
O zaino olha para trás e, sem parar de correr grita:
-Tu pensas que me engana, velho de uma figa? Falei que tu não agüentavas até o final!!!
Quando volta a cabeça para frente, avista um grande perau, aberto pela chuva. Um precipício com mais de cinco metros de profundidade. Sem conseguir parar, atira-se ao chão, mas não adianta, cai no perau e fica preso pelas patas, pendurado na borda do barranco, seguro apenas pela raiz de uma corticeira, que começava a ceder.
O mouro, vendo a situação do outro cavalo, não pensou duas vezes, deu a volta e entrou no perau pela frente, ficando logo abaixo do cavalo mais novo.
-Te solta, zaino! Eu posso diminuir o impacto da tua queda!
-Não, se eu fizer isto, eu posso acabar te machucando!!!
-Mas se não fizer isto, tu podes acabar morrendo.
Não vendo outra alternativa, o zaino solta as patas e cai em cima do mouro velho. Um som abafado é ouvido, seguido de um ronco horrível saído da boca do cavalo mais velho que, não agüentando o peso do outro, cai e não consegue mais levantar.
O zaino, desesperado, começa a correr em volta do velho mestre e a berrar:
-Eu te disse, por que tu ficaste aí em baixo? Eu merecia ter caído e morrido. Foi eu quem provocou esta carreira.
O mouro, em seus últimos suspiros ainda teve tempo de dizer:
-Não, meu jovem, quando eu parei de correr, sabia que tinha que buscar uma razão maior do que simplesmente ser o melhor e o mais rápido. Hoje tu me ajudaste a descobrir a razão da minha existência. Eu sempre soube que tinha este perau, mas queria saber se teu orgulho era grande o suficiente para fechar teus olhos. A lição que tu aprendeste hoje, tu vais levar para toda vida.
-Mas não é justo!!!- diz o jovem cavalo.
-Agora sei qual a razão do meu viver: ensinar-te o que é humildade. Tenho certeza que tu vai lembrar sempre disto.
Uma baba vermelha começa a escorrer-lhe pelo canto da boca. Então o mouro velho fecha os olhos, e vai a galope para o céu dos cavalos.
O zaino aprendeu sua lição e, apesar de continuar correndo, nunca mais deixou de respeitar a história daqueles que pararam de correr... Em vez de tentar provar que é melhor que eles, procura-os na sombra dos capões de mato, onde sempre pergunta coisas sobre a vida e sempre aprende um pouco mais sobre ela.