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.:: A Carreira por Leandro Araújo  

 
Em uma certa fazenda da fronteira havia um cavalo mouro, muito famoso por ser um grande campeão de carreiradas. O patrão se orgulhava muito dele, pois este já lhe havia ganho muitos prêmios em dinheiro. Entre os cavalos ele também era muito respeitado: era o mais rápido e o que podia saltar mais longe. Só que em um certo dia o mouro resolveu parar de correr. Não por covardia ou por achar que estava ficando mais lento... simplesmente porque havia se cansado daquilo. Achava que sua vida era preciosa demais para ficar dando alegria e riqueza para o seu dono. Seu destino não poderia estar resumido a correr, correr e correr... sua vida devia ter uma valia maior. O dono, não entendendo o que acontecera com seu melhor cavalo, soltou-o no campo, pensando que este estava doente de tanto correr.
 
E assim, deixado no campo para morrer em paz, o cavalo conheceu a verdadeira liberdade. No entanto o fazendeiro não estava contente, e resolveu começar a treinar um novo potro, um zaino, muito parecido com aquele que se aposentara: baixo, forte e sempre disposto. E obtivera sucesso. O cavalo novo parecia tão bom quanto o velho, talvez melhor... ganhava uma carreira atrás da outra. Só que uma coisa começava a impacientar o zaino. Não paravam de compará-lo com o mouro, ou o que era pior, apesar de ganhar todas as carreiras, estava cansado de ouvir os outros dizerem: “Parece ser tão bom quanto o velho mouro aposentado!”. O zaino estava indignado. “Que história é esta de tão bom quanto??? Eu quero ser melhor!!”. E não restou outra alternativa senão procurar o mouro.
 

-Mouro velho, quero provar para este povo que eu sou o melhor cavalo daqui. Desafio-te para uma carreira daqui até o Cerro do Coqueiro-torto. Quem chegar até lá primeiro vence.

O cavalo velho, pastando calmamente à sombra de um tarumã, sacode a cabeça, tira a crina da frente dos olhos e com muita calma diz para o outro:

-Escuta, meu rapaz. Meu tempo de corredor já terminou. Foi uma bela fase da minha vida, onde consegui fama e enchi a guaiaca do meu dono. Mas cansei disto tudo, não pretendo mais correr.

-Como? Cansado de fama e de dinheiro? Por acaso não gostavas de ter o pelo escovado, de ter cocheira especial, pasto de melhor qualidade? De namorar as éguas mais bonitas destes campos? Isto me cheira a desculpa, o que tu tens eu sei, é medo!

Mesmo com a raiva aparente do jovem cavalo, o mouro velho manteve a calma. Ele entendia que aquilo tudo não passava de orgulho, que na verdade o que o zaino queria afirmar-se a si mesmo, não aos outros. Então, dando as costas para o jovem, foi descendo em direção à sanga mansamente, dizendo:

-Não, simplesmente não quero mais correr... se tu preferes que eu diga a todos que é melhor, não tem problema, isso pra mim não tem mais importância.

Ah! Mas o cavalo mais novo não se dá por vencido, pois sabe que a única maneira de provar que realmente é melhor é o vencendo em uma carreira. Então, resolve provocá-lo de todas as maneiras para força-lo a correr. Faz intrigas e fofocas, diz a todos que o mouro velho não tem mais a mesma força, que se recusou a correr por medo de não conseguir nem chegar até o final. O mouro, mesmo com toda paciência que a vida lhe ensinara a ter, começa a se chatear com aquilo e, de tanto ouvir a falação dos outros animais da fazenda, resolve aceitar a carreira. Afinal, seria só mais uma carreira, a última. O resultado até não seria o mais importante, pois seria a oportunidade de fazer o jovem cavalo ter paz em seu coração.

Foi o anúncio mais esperado do ano. Toda a bicharada estava lá. Um capincho velho seria o juiz de linha, e um carancho famoso por ser ligeiro, seria o juiz que acompanharia todo o percurso. Sairiam do pequeno açude atrás do potreiro e quem chegasse primeiro até o Coqueiro-torto seria o campeão.

O zaino parecia possuído, provocando todo o tempo o cavalo velho:
-Agora tu vais ver o que é correr, velho...

E o mouro, que parecia impassível esperando o sinal de largada que seria dado pelo carancho, começou a sentir algo que fazia tempos não sentia. Claro que poderia vencer o zaino, pois se a juventude não estava ao seu lado, a experiência faria a diferença. Conhecia os atalhos do percurso, onde os arroios davam o melhor vau, onde o chão era mais firme. Havia pensado muito na carreira, em deixar o jovem vencer tranqüilamente, mas quando o coração disparou e o sangue começou a ferver, o velho ímpeto guerreiro lhe reacendeu a chama dos olhos. Ao mira-los, pela primeira vez em sua vida o jovem zaino sentiu medo.

Ao sinal, os dois saíram.
Era incrível, mas os dois pareciam correr na mesma velocidade, cabeça com cabeça, cada vez mais rápidos. Logo que passaram a primeira sanga o mouro assume a dianteira, deixando o outro mais de um corpo para trás. Já passavam de uma légua quando, de repente, o mouro começa a diminuir o passo. O zaino estranha mas mantém o ritmo cada vez mais forte nas patas. Quando já abre uma boa distância do mouro começa a dar a carreira por vencida. Neste momento, o velho cavalo começa a gritar:

-Pára, zaino! Pára!!!
O zaino olha para trás e, sem parar de correr grita:
-Tu pensas que me engana, velho de uma figa? Falei que tu não agüentavas até o final!!!
Quando volta a cabeça para frente, avista um grande perau, aberto pela chuva. Um precipício com mais de cinco metros de profundidade. Sem conseguir parar, atira-se ao chão, mas não adianta, cai no perau e fica preso pelas patas, pendurado na borda do barranco, seguro apenas pela raiz de uma corticeira, que começava a ceder.

O mouro, vendo a situação do outro cavalo, não pensou duas vezes, deu a volta e entrou no perau pela frente, ficando logo abaixo do cavalo mais novo.
-Te solta, zaino! Eu posso diminuir o impacto da tua queda!
-Não, se eu fizer isto, eu posso acabar te machucando!!!
-Mas se não fizer isto, tu podes acabar morrendo.
Não vendo outra alternativa, o zaino solta as patas e cai em cima do mouro velho. Um som abafado é ouvido, seguido de um ronco horrível saído da boca do cavalo mais velho que, não agüentando o peso do outro, cai e não consegue mais levantar.
O zaino, desesperado, começa a correr em volta do velho mestre e a berrar:
-Eu te disse, por que tu ficaste aí em baixo? Eu merecia ter caído e morrido. Foi eu quem provocou esta carreira.
O mouro, em seus últimos suspiros ainda teve tempo de dizer:
-Não, meu jovem, quando eu parei de correr, sabia que tinha que buscar uma razão maior do que simplesmente ser o melhor e o mais rápido. Hoje tu me ajudaste a descobrir a razão da minha existência. Eu sempre soube que tinha este perau, mas queria saber se teu orgulho era grande o suficiente para fechar teus olhos. A lição que tu aprendeste hoje, tu vais levar para toda vida.
-Mas não é justo!!!- diz o jovem cavalo.
-Agora sei qual a razão do meu viver: ensinar-te o que é humildade. Tenho certeza que tu vai lembrar sempre disto.
Uma baba vermelha começa a escorrer-lhe pelo canto da boca. Então o mouro velho fecha os olhos, e vai a galope para o céu dos cavalos.
O zaino aprendeu sua lição e, apesar de continuar correndo, nunca mais deixou de respeitar a história daqueles que pararam de correr... Em vez de tentar provar que é melhor que eles, procura-os na sombra dos capões de mato, onde sempre pergunta coisas sobre a vida e sempre aprende um pouco mais sobre ela.


Moral da história:
A humildade é a maior vitória que qualquer campeão pode conquistar.


No mais, era isto. Um fraternal e cinchado abraço,
Leandro de Araújo
Confraria de Declamadores
declamadores@yahoo.com.br

 
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