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Vários estudos sobre a formação da personalidade do gaúcho já foram realizados, das mais diversas formas e por todas as entidades que tivessem entre suas atribuições este tipo de pesquisa. Nem uma delas, no entanto, conseguiu fazer suas observações do ângulo que parece ser o mais óbvio neste tipo de análise, pois todos os trabalhos, da pesquisa à conclusão, acabam caindo na grande iniqüidade que está presente em quase todos os trabalhos de pesquisa: a observação do fato de fora para dentro. A falta de documentos ou material de pesquisa suficientemente convincente que traga o observador para dentro da questão, torna as pesquisas muito boas de um ponto de vista acadêmico, mais frias em seu conteúdo, dando a elas um caráter irreal, muitas vezes como se fizessem parte de um roteiro pré-determinado e não de vidas humanas complexas e ricas em singularidades. |
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Para conhecermos o gaúcho, seria necessário não somente a leitura, mas a busca da pessoa humana dentro de seu habitat, buscar seus questionamentos, seus anseios e, principalmente suas revoltas. Digo “principalmente” porque os objetos de indignação de um determinado tipo humano revelam mais do que este possa vir a ser, mostrando o que é e dando uma possibilidade muito grande de se obter subsídios antropológicos de se descobrir como ele chegou até ali. Esta possibilidade nos acena com um caminho mais plausível e humano para chegarmos a conclusões sobre o âmago de qualquer questão relacionada à formação da personalidade.
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Governo é governo e é sempre divertido ser contra. (Érico Veríssimo – O Tempo e o Vento) |
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Viver tão distante dos grandes centros fez do sul do Brasil uma região politicamente autônoma. Veja bem: se durante mais de dois séculos a existência territorial do Rio Grande do Sul só se devia em virtude do controle da fronteira, não era do menor interesse do governo central implantar escolas, hospitais e outras instituições para benefício e conforto do povo. Tais iniciativas tiveram que se dar a partir daqui mesmo, com a busca através da revolta e indignação da aristocracia pecuarista. Claro, as primeiras instalações se estabeleceram para o benefício dos filhos destes abastados estancieiros, mas foram o passo inicial para a construção de um bem para os menos favorecidos. Pode-se dizer, então, que as primeiras conquistas foram adquiridas a força, devido à indignação, não somente à necessidade. |
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Era o governo que cobrava os impostos, que recrutava os homens para a guerra, que requisitava gado, mantimentos e às vezes até dinheiro e que nunca mais se lembrava de pagar tais requisições… Era o governo que fazia as leis – leis que sempre vinham em prejuízo do trabalhador, do agricultor, do pequeno proprietário. |
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Com o passar dos anos, por mais incrível que pareça, muitas coisas não mudaram. Mas com o início da politização do povo dá-se uma consciência de princípios que começa a formar uma identidade política muito particular às pessoas. Esta consciência, que antes era restrita aos poucos letrados, trouxe a necessidade indelével de lutar pelo que se fazia preciso, pois se sabia que de outra forma não haveria conquista. O governo central, desta forma começa a olhar com outros olhos para o sul, pois com o advento da democracia, o apoio dos brasileiros destes pagos já começa a se fazer indispensável para os anseios políticos de quem quer que seja. |
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| .: A Mulher | |||||||||
No sul a figura feminina é um elemento singularíssimo; independente da etnia ou classe social que representa. Manifesta-se com uma presença forte e batalhadora, que não costuma baixar a cabeça e submeter-se a situações onde fique rebaixada ou inferiorizada. |
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- O senhor sabe que eles são tão bons e tão valentes como os republicanos. É a mesma gente, só que com idéias diferentes. |
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(Érico Veríssimo – O Tempo e o Vento) |
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Obrigada a sofrer calada durante mais de duzentos anos de combates e revoltas, estas viram partir para guerras seus pais, irmãos, maridos e filhos. Ficando com a obrigação de cuidar da casa, dos filhos pequenos e filhas moças, da criação e plantação. Não precisamos procurar muito para chegarmos a esta conclusão: se os homens válidos estavam envolvidos diretamente nos entreveros, a quem ficaria delegada a missão de manter de pé as estruturas familiares e , inclusive, econômicas do estado? |
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D. Bibiana tem razão: as mulheres do Rio Grande são direitas e cumprem suas obrigações por puro cacoete. E cacoete hereditário… |
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(Érico Veríssimo – O Tempo e o Vento) |
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| Por uma curiosa ironia, a mulher que aparece de forma destacada nos relatos históricos do Rio Grande do Sul é Anita Garibaldi, que nem gaúcha era, mas sim catarinense. Mas, mesmo tal destaque se deve ao fato dela estar à sombra de um italiano que lutou ao lado dos revolucionários farroupilhas. O interessante é que as mulheres que mais sofreram e tiveram suas vidas completamente mudadas pelas idas e vindas de nossa história, aquelas que acabaram influenciando diretamente o comportamento e a personalidade das mulheres de hoje, foram as que menos ganharam notoriedade. Talvez a lembrança destas mulheres ficou restrita a lendas, contos e causos passados de geração a geração. |
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- Nesta província os homens em geral resolvem suas questões a arma branca ou a arma de fogo. O duelo dura poucos minutos, um dos adversários fica estendido no chão… |
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(Érico Veríssimo – O Tempo e o Vento) |
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| A História deve às mulheres gaúchas um reconhecimento no mínimo igual ao dado aos homens, pois costumamos encontrar escritos grandes artigos sobre “heróis” lutadores que delimitaram o Rio Grande, mas se não fossem as mulheres que ficaram em casa, estes heróis, quando voltassem dos confrontos, não encontrariam nada aqui, a não ser taperas. |
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| .: Concluindo | |||||||||
Fica evidente que o posicionamento dos gaúchos dentro das formações antropológicas brasileiras se dá de forma diferente. Ao analisarmos as concepções históricas juntamente com a formação geográfica do Rio Grande do Sul, percebemos claramente que se trata do estado com os maiores contrastes entre as conformações históricas, culturais e humanas dentre os demais que compõem o Brasil. Sem negar sua brasilidade, as pessoas que vivem no extremo sul do país possuem características marcantes, carregadas de um certo orgulho que, algumas vezes, chega a tomar certos ares de superioridade. É evidente que não são somente os aspectos relacionados aqui que marcam esta individualidade, talvez existam outros que indicam com mais intensidade a disparidade antropológica do gaúcho, mas estes relacionados aqui são os mais evidentes, que nos cercam convivem conosco em nosso dia-a-dia. Não se trata de uma discriminação com fins desarmônicos, mas de um fato que nos atinge diretamente e falar a respeito dele sempre é importante, pois quando buscamos nos conhecer melhor, temos de forma mais clara a possibilidade de conhecer as pessoas que nos rodeiam. Usar estas diferenças como forma de integração com os demais brasileiros é a forma mais sensata de analisarmos tais características. |
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Obs: A ilustração da chamada deste artigo é obra o Artista Plástico Argentino Florêncio Molina Campos |
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| No mais, era isto. Um fraternal e cinchado abraço, Leandro de Araújo Confraria de Declamadores declamadores@yahoo.com.br |
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