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.:: A Formação da Personalidade do Gaúcho

 
Dois aspectos peculiares
 

É evidente que o povo gaúcho constitui uma das mais peculiares personalidades do Brasil. Tendo em vista que sua formação se deu de forma diferente dos demais estados, nada mais natural que estas pessoas, que descendem de um povo que teve como missão principal garantir a fronteira, guerrear contra impérios ou contra os próprios irmãos, não só serem como se sentirem diferentes dos demais brasileiros. Vejam que eu digo "demais brasileiros", porque apesar do espírito libertário e das idéias herdadas de farroupilhas e federalistas, o gaúcho não se sente menos brasileiro e menos patriota.

 
Vários estudos sobre a formação da personalidade do gaúcho já foram realizados, das mais diversas formas e por todas as entidades que tivessem entre suas atribuições este tipo de pesquisa. Nem uma delas, no entanto, conseguiu fazer suas observações do ângulo que parece ser o mais óbvio neste tipo de análise, pois todos os trabalhos, da pesquisa à conclusão, acabam caindo na grande iniqüidade que está presente em quase todos os trabalhos de pesquisa: a observação do fato de fora para dentro. A falta de documentos ou material de pesquisa suficientemente convincente que traga o observador para dentro da questão, torna as pesquisas muito boas de um ponto de vista acadêmico, mais frias em seu conteúdo, dando a elas um caráter irreal, muitas vezes como se fizessem parte de um roteiro pré-determinado e não de vidas humanas complexas e ricas em singularidades.
 

Para conhecermos o gaúcho, seria necessário não somente a leitura, mas a busca da pessoa humana dentro de seu habitat, buscar seus questionamentos, seus anseios e, principalmente suas revoltas. Digo “principalmente” porque os objetos de indignação de um determinado tipo humano revelam mais do que este possa vir a ser, mostrando o que é e dando uma possibilidade muito grande de se obter subsídios antropológicos de se descobrir como ele chegou até ali. Esta possibilidade nos acena com um caminho mais plausível e humano para chegarmos a conclusões sobre o âmago de qualquer questão relacionada à formação da personalidade.

Dentro do Estado do Rio Grande do Sul encontramos uma gama muito grande de tipos e etnias, o que tornaria qualquer trabalho de investigação e busca mais difícil. Como definir a personalidade de um povo que, muitas vezes, dentro do mesmo espaço geográfico apresenta mais de uma forma de manifestação cultural e política? Mas podemos buscar alguns aspectos comuns aos gaúchos dentro das diversas regionalidades.:

As tendências esquerdistas e o posicionamento oposicionista dentro do cenário político.

A mulher gaúcha como referencial de determinação e paciência, ao mesmo tempo em que é vítima de uma das maiores injustiças históricas que se tem notícia.

Buscando respostas para estes e outros questionamentos, encontramos uma vasta lista de referenciais teóricos dos mais diversos autores. Alguns defendem a tese de que a personalidade do gaúcho é proveniente do meio em que vive, sendo assim fatores geográficos; outros, no entanto, consideram que os fatores históricos foram os que mais intervieram nesta construção. Dentre as obras consultadas para a elaboração deste artigo, foi na obra de um dos maiores romancistas do Brasil, o gaúcho Érico Veríssimo, que encontramos, não respostas, mas caminhos para que possamos formular as perguntas corretas. Os livros que compõem a trilogia O TEMPO E O VENTO trazem em si aspectos da personalidade dos Sul-rio-grandenses em várias épocas da História, em diversas classes sociais. Claro, o romance é centrado na vida de uma família rica, mas Érico Veríssimo jamais esqueceu de mostrar o quão sofrida foi (e ainda é) a vida das pessoas menos afortunadas, totalmente dependentes da caridade de pessoas mais abastadas. Érico Veríssimo mesclou-se à história, tomando partido, exercendo influência, seja como um personagem principal da trama como um coadjuvante que assistia os acontecimentos de perto. Sim, ele nunca se afasta da trama e esta proximidade nos fez observar os fatos de dentro para fora, olhando o gaúcho “nos olhos”, dando-nos a possibilidade de formar opiniões, julgar caráter e sentir de perto a forte singularidade dos personagens. Não cabe aqui resenha ou avaliação da obra de Érico Veríssimo, mas sim usá-la como pano de fundo para uma avaliação mais profunda da formação da personalidade rio-grandense hoje. Os fatos têm início em meados do século XVIII e seguem até ao fim da Era Vargas. Para quem tem a possibilidade de conhecer pessoalmente os diversos tipos humanos encontrados no estado, fica fácil traçar paralelos entre ficção e realidade, inclusive naqueles personagens mais pitorescos e menos corriqueiros na atualidade. Então, desta forma, vamos dar início à nossa busca pela Formação da Personalidade do Gaúcho, não com olhos críticos de um observador, mas com o coração, buscando em “O Tempo e o Vento” caminhos que nos levem a respostas.

Política: tendência esquerdista, indignação e federalismo.

Negar. Parece que quando mencionamos a palavra “política” é esta a primeira palavra que nos vem à mente. Mostrar-se contrário à situação dominante, não aceitar nem mesmo aquelas convicções que nós mesmos colocamos no comando parece ser uma sina dos gaúchos. Não há como abjurar, somos “do contra”.

Governo é governo e é sempre divertido ser contra.
(Érico Veríssimo – O Tempo e o Vento)


Viver tão distante dos grandes centros fez do sul do Brasil uma região politicamente autônoma. Veja bem: se durante mais de dois séculos a existência territorial do Rio Grande do Sul só se devia em virtude do controle da fronteira, não era do menor interesse do governo central implantar escolas, hospitais e outras instituições para benefício e conforto do povo. Tais iniciativas tiveram que se dar a partir daqui mesmo, com a busca através da revolta e indignação da aristocracia pecuarista. Claro, as primeiras instalações se estabeleceram para o benefício dos filhos destes abastados estancieiros, mas foram o passo inicial para a construção de um bem para os menos favorecidos. Pode-se dizer, então, que as primeiras conquistas foram adquiridas a força, devido à indignação, não somente à necessidade.

Era o governo que cobrava os impostos, que recrutava os homens para a guerra, que requisitava gado, mantimentos e às vezes até dinheiro e que nunca mais se lembrava de pagar tais requisições… Era o governo que fazia as leis – leis que sempre vinham em prejuízo do trabalhador, do agricultor, do pequeno proprietário.
(Érico Veríssimo – O Tempo e o Vento)

 

Com o passar dos anos, por mais incrível que pareça, muitas coisas não mudaram. Mas com o início da politização do povo dá-se uma consciência de princípios que começa a formar uma identidade política muito particular às pessoas. Esta consciência, que antes era restrita aos poucos letrados, trouxe a necessidade indelével de lutar pelo que se fazia preciso, pois se sabia que de outra forma não haveria conquista. O governo central, desta forma começa a olhar com outros olhos para o sul, pois com o advento da democracia, o apoio dos brasileiros destes pagos já começa a se fazer indispensável para os anseios políticos de quem quer que seja.

O gaúcho acaba se tornando calejado ante esta situação. E com isso, a tendência oposicionista acaba sendo o princípio político que mais aflora em sua personalidade. Independentemente do partido ou facção política a que se faz referência, para definir a opinião da maioria dos gaúchos pode-se utilizar uma expressão bastante utilizada nesta terra: “Nunca está bom!”.

É incrível, mas muitos são federalistas, mesmo sem saber se existe ou o que significa esta palavra. Se para conquistar direitos e ver suas necessidades acatadas buscou-se um ideal de “autonomia”, até hoje esta filosofia continua povoando as idéias das pessoas politizadas, pois sabem, que sem contrariar o que é de desagrado, sem levantar a voz perante o desmando, o Rio Grande do Sul volta a condição de Província, servindo apenas para a manutenção da fronteira sul do Brasil.

 
.: A Mulher
 

No sul a figura feminina é um elemento singularíssimo; independente da etnia ou classe social que representa. Manifesta-se com uma presença forte e batalhadora, que não costuma baixar a cabeça e submeter-se a situações onde fique rebaixada ou inferiorizada.

A gaúcha acostumou-se com o sofrimento, mas sem jamais se dar vencida a ele. Muito pelo contrário, encontra nas dificuldades motivo de força e resistência. Considerada prescindível nos períodos de revolta, a mulher participa ativamente dos episódios históricos do Rio Grande do Sul.

 

- O senhor sabe que eles são tão bons e tão valentes como os republicanos. É a mesma gente, só que com idéias diferentes.
- Que é que a senhora entende de idéias?
- Não é preciso gritar. O senhor faz todo esse barulho porque no fundo sabe que não está procedendo direito.
- Isto não é negócio de mulher. É negócio de macho.
- Deus fez o mundo errado. Eu queria que os homens tivessem filho pelo menos uma vez na vida, só para verem como não é fácil.… Ter filho é que é negócio de mulher, eu sei – continua Maria Valéria. Cuidar da casa é negócio de mulher. Sofrer calada é negócio de mulher. Pois fique sabendo que esta revolução também é negócio de mulher. Nós também estamos defendendo o Sobrado. Alguma de nós já se queixou? Alguma já lhe disse que passa o dia com dor no estômago, como quem comeu pedra, e pedra salgada? Alguma já lhe pediu pra entregar o Sobrado? Não. Não pediu. Elas também estão na guerra.

(Érico Veríssimo – O Tempo e o Vento)
 

Obrigada a sofrer calada durante mais de duzentos anos de combates e revoltas, estas viram partir para guerras seus pais, irmãos, maridos e filhos. Ficando com a obrigação de cuidar da casa, dos filhos pequenos e filhas moças, da criação e plantação. Não precisamos procurar muito para chegarmos a esta conclusão: se os homens válidos estavam envolvidos diretamente nos entreveros, a quem ficaria delegada a missão de manter de pé as estruturas familiares e , inclusive, econômicas do estado?

A mulher gaúcha levou em suas costas por uma infinidade de vezes toda a responsabilidade de manter o Rio Grande ativo enquanto seus homens emprestavam suas forças a causas políticas. Muitas vezes elas assumiam também o papel de soldado, pois ficando desprotegida a casa, a elas caberia a responsabilidade de proteger os bens e a integridade da família.

 
D. Bibiana tem razão: as mulheres do Rio Grande são direitas e cumprem suas obrigações por puro cacoete. E cacoete hereditário…
(Érico Veríssimo – O Tempo e o Vento)
 
Por uma curiosa ironia, a mulher que aparece de forma destacada nos relatos históricos do Rio Grande do Sul é Anita Garibaldi, que nem gaúcha era, mas sim catarinense. Mas, mesmo tal destaque se deve ao fato dela estar à sombra de um italiano que lutou ao lado dos revolucionários farroupilhas. O interessante é que as mulheres que mais sofreram e tiveram suas vidas completamente mudadas pelas idas e vindas de nossa história, aquelas que acabaram influenciando diretamente o comportamento e a personalidade das mulheres de hoje, foram as que menos ganharam notoriedade. Talvez a lembrança destas mulheres ficou restrita a lendas, contos e causos passados de geração a geração.
 

- Nesta província os homens em geral resolvem suas questões a arma branca ou a arma de fogo. O duelo dura poucos minutos, um dos adversários fica estendido no chão…
- Ou os dois…
- Sim, ou os dois. E a questão está resolvida.
- Mas nós mulheres não somos assim. Ficamos com a nossa guerra miudinha, dia a dia, hora a hora…
- E é preciso mais coragem pra esse tipo de guerra feminino do que pra um duelo a adaga ou pistola.
- A paciência é nossa maior arma, doutor.

(Érico Veríssimo – O Tempo e o Vento)
 
A História deve às mulheres gaúchas um reconhecimento no mínimo igual ao dado aos homens, pois costumamos encontrar escritos grandes artigos sobre “heróis” lutadores que delimitaram o Rio Grande, mas se não fossem as mulheres que ficaram em casa, estes heróis, quando voltassem dos confrontos, não encontrariam nada aqui, a não ser taperas.
 
.: Concluindo
 

Fica evidente que o posicionamento dos gaúchos dentro das formações antropológicas brasileiras se dá de forma diferente. Ao analisarmos as concepções históricas juntamente com a formação geográfica do Rio Grande do Sul, percebemos claramente que se trata do estado com os maiores contrastes entre as conformações históricas, culturais e humanas dentre os demais que compõem o Brasil. Sem negar sua brasilidade, as pessoas que vivem no extremo sul do país possuem características marcantes, carregadas de um certo orgulho que, algumas vezes, chega a tomar certos ares de superioridade. É evidente que não são somente os aspectos relacionados aqui que marcam esta individualidade, talvez existam outros que indicam com mais intensidade a disparidade antropológica do gaúcho, mas estes relacionados aqui são os mais evidentes, que nos cercam convivem conosco em nosso dia-a-dia. Não se trata de uma discriminação com fins desarmônicos, mas de um fato que nos atinge diretamente e falar a respeito dele sempre é importante, pois quando buscamos nos conhecer melhor, temos de forma mais clara a possibilidade de conhecer as pessoas que nos rodeiam. Usar estas diferenças como forma de integração com os demais brasileiros é a forma mais sensata de analisarmos tais características.

Em um país de proporções continentais como o Brasil não é nada mais natural que ocorram formações sociais distintas, e estas diferenças, quando usadas em sua forma mais positiva, servem para unir ainda mais as pessoas, pois é nas diferenças entre elas que se encontra a possibilidade de troca, onde um acaba completando as carências do outro.

 
Obs: A ilustração da chamada deste artigo é obra o
Artista Plástico Argentino Florêncio Molina Campos
 
No mais, era isto. Um fraternal e cinchado abraço,
Leandro de Araújo
Confraria de Declamadores
declamadores@yahoo.com.br
 
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