.:: Entrevista com Paixão Cortes   
      
No mês de Setembro o Site entrevistou o Papa da Tradição gaúcha. Paixão Cortes é o idealizador da Chama Crioula, Ronda Crioula, Candieiro Crioulo e inspirador do desfile da Semana Farroupilha.
  
Site: O Sr. tem raízes no campo?
     
Paixão: Eu tanto do lado materno como paterno possuo raízes nos hábitos rurais, meus avós eram homens que tinha estâncias, e conseqüentemente eu nasci sobre o signo dos aspectos campestres e também passei a minha mocidade e juventude sempre ligado as estâncias dos meus tios e normalmente conhecendo ou simplesmente admirando as atividades e as lides rurais, mas sim convivendo e participando e me integrando com toda a sua essência da singeleza do galpão, das atividades campestres do homem a cavalo e da vida rural, cantando, ouvindo, dançando, trabalhando, enfim. Eu me considero um homem profundamente ligado a terra.
 
Site: Com isso o Sr. Acompanhou o surgimento dos Bertussi?
 
Paixão: Sim, mas o Bertussi são momentos posteriores ou durante do inicio do movimento tradicionalista, mas até chegar o movimento tradicionalista e tive uma vivência maior neste sentido que foi a fundação do Departamento de Tradições Gaúchas no Colégio Júlio de Castilhos em 1947 que deu razão a fundação do 35 Centro de Tradições em 1948. Os Bertussi, nasceram, surgiram, se identificaram publicamente através do disco, nesta época, portanto tenho uma convivência muito grata com eles porque eles eram excelentes acordionistas, engrandeceram o instrumento Acordeão e identificaram uma maneira de cantar em dueto que no Brasil era difícil com dois acordeões tocando, pois geralmente era um acordeão e um violão, ou dois violões ou violões e violas. Quem abriu este ciclo foram os Bertussi que conheci pessoalmente.
 
Site: O Sr. Falou que pesquisou muito sobre a cultura gaúcha. Qual é sua formação?
     
Paixão: Pelo fato de ter raízes com a minha terra, eu desenvolvi na minha vida profissional também neste sentido, então eu sou Engenheiro Agrônomo formado pela Faculdade Federal do Rio Grande do Sul e desempenhei várias funções na área da ovinocultura, eu sou técnico neste setor, dei assistência ao homem do campo e dirigi este setor de ovinocultura na Secretaria da Agricultura por 15 anos. Isso fez que eu me identificasse cada vez mais com o homem do campo, as suas necessidades, seus questionamentos, suas inquietudes, e ao mesmo tempo fui a encontro deles levando a mensagem de progresso, desenvolvimento e de bem estar social.
 
Site: O Sr. canta, compõe ou toca algum instrumento musical?
   
Paixão: Eu não toco nenhum instrumento, e também não me considero um compositor, pois me considero um investigador, um pesquisador, um folclorista que a cinqüenta e tantos anos foi buscar nas fontes originais das manifestações do homem gauchesco e que reuniu todo este material e depois até os dias de hoje vem publicando edições, artigos. Isso me fez ficar junto aos meios de comunicação, do rádio, do jornal, da televisão, do teatro, do cinema, enfim estas áreas que hoje estão ligadas as comunicações mais imediatas e até fiz durante quarenta anos rádio, fiz teatro e até recentemente fiz três espetáculos em Brasília, foram espetáculos e não shows. Durante este tempo de atividades eu estive por oito vezes na Europa cantando e dançando, estive na Inglatera, na Escócia, Portugal, Espanha, Alemanha, estive também na França, sempre divulgando as nossas tradições, os nossos hábitos.
  
Site: O Sr. Citou o Colégio Júlio de Castilhos, e neste o Sr. Fundou o departamento de Tradições Gaúchas?
 
Paixão: Sim realmente em 1947 eu fundei este departamento ligado ao grêmio estudantil, e desenvolvi uma série de atividades que acabaram motivando, pois ao término do período escolar viéssemos a fundar um entidade que foi o 35 Centro de Tradições e nesta época nós criamos a Chama Crioula, o Candieiro Crioulo, o Desfile Farroupilha, a Ronda Crioula, demos inicio as passeatas, aos bailes gauchescos, conferências, estudos sobre vestuário. Tudo isso foi base para a fundação do 35 Centro de Tradições em 1948.
 
Site: Como foi a reação das pessoas naquela época com o Movimento de Tradições Gaúchas?
 
Paixão: Foi uma surpresa, não só do setor educandário, mas também dos meios políticos, sociais e culturais do Rio Grande do Sul, pois até então a nossa querência maior estava jogada em segundo plano, as figuras eram tomadas como ridículas e havia quase uma dominância implantada pelos norte americanos, posterior a Segunda Guerra Mundial nos meios de comunicação para descaracterizar os nossos hábitos regionais e brasileiros através da implantação da sua cultura norte americana e na recuperação econômica do país depois da Segunda Guerra.

Site: Hoje como o Sr. vê o Movimento de tradições gaúchas? E o que tem a dizer em relação à Santa Catarina que também é muito rico nas Tradições Gaúchas?


Paixão: Naquela época de 1947 nós éramos em oito pessoas, e quando fundamos o 35 éramos em 24 jovens e hoje passado mais de meio século existe 3.731 entidades espalhadas pelo mundo todo e os estudiosos dizem que este movimento reuni e congrega um milhão de pessoas, portanto mais do que minhas palavras e tudo que eu possa dizer os números falam muito alto a respeito disso e quanto a Santa Catarina o movimento começou relativamente jovem como é o do Rio grande do Sul que tem cinqüenta e poucos anos e tem uma resposta muito grande no cenário brasileiro por ser o estado que tem o maior número de entidades ligadas as nossas tradições. Este movimento se justifica, pois Santa Cataria tem uma vasta área rural pelos seus hábitos de trabalho e atividades econômicas e sociais que estão ligadas ao campeirismo.
  
Site: Paixão, o que o dia 20 de Setembro representa para o Sr?

  

Paixão: Eu não tenho data significativa, especial ligada ao tradicionalismo eu acho que a data de 20 de Setembro marca o inicio da Revolução Farroupilha. Eu não sou gaúcho de 20 de Setembro e nem da Semana Farroupilha, pois procuro ser um homem ligado ao Rio Grande 365 dias, levando sempre este idéia de como nós éramos e o que herdamos, o que estamos preservando, e o que estamos entregando as novas gerações.
  
Site: Quem foi Barbosa Lessa para o Sr?
  
Paixão: Barbosa Lessa foi meu companheiro desde os primeiros momentos quando se fundou o departamento de tradições ele estudava no mesmo colégio que eu que era o Julio de Castilhos eu a noite e ele pela tarde e quando desfilamos acabamos nos encontrando em praça publica e desde aquele momento nos identificamos profundamente. Eu sempre falo que Lessa continua com a gente, pois os seus pensamentos, suas ações, o seu trabalho, foi um escritor inteligentíssimo. É uma tristeza que eu recordo a ausência do Lessa para a cultura do Rio Grande do Sul e Brasileira, mas ele com seus livros, suas obras, seus estudos, seus pensamentos, estão aí dando uma grande contribuição para literatura Brasileira e para o Movimento Tradicionalista.
  
Site: O Sr. Teve envolvimento com algum CTG? O Sr. Laçava?
   
Paixão: Por atividades normais eu sempre lacei, eu sempre tive uma estreita ligação com as atividades campechanas e isso continuou e permanentemente sempre estávamos em contato com outras pessoas que similarmente acharam que aquela idéia de 1947 merecia dar continuidade e vieram ao nosso encontro para que se desenvolvesse mais e mais o Centro de Tradições. O Tradicionalismo não surgiu por um acaso. O Tradicionalismo vem das heranças mais remotas da Península Ibélica que se estendeu pelo Pampa e que chega hoje ao Rio Grande e outros estados através da minha continuada existência comunicação.
   
Site: O Sr. leciona cursos e palestras. O que as pessoas buscam nestes cursos e palestras?

Paixão: Uma das coisas curiosas são quais as causas do Movimento Tradicionalista e como ele se desenvolveu e quais as perspectivas para o futuro. Outro questionamento que agora começa a ser levantado que é diferença entre folclore e tradição, nativismo, regionalismo.
 
Site: Nesse momento se o Sr. tiver algum comentário que gostaria de fazer para complementar nossa conversa, por favor, fique a vontade?

Paixão: Eu acho que tenho feito muito pouco nestes meus 77 anos e cinqüenta e tantos de tradição e sei que posso contribuir muito, pois eu publiquei 60 livros e nestes últimos 5 anos foram nós editamos 335 mil publicações, então acho que é um bom número, pois todas são ilustradas. Nosso desejo é ampliar cada vez mais esta divulgação e vocês tem um papel importante. Eu desejo muito sucesso para vocês.
 
Por Adriano Luiz Moretti e Sandro Roberto Ferarri.
 
O site www.SouGaucho.Com.Br agradece a gentileza do Sr. Paixão Cortes, pela satisfação de ter cedido algumas de suas imagens e um material a respeito do tradicionalismo, onde estão sendo disponibilizados nos canais do site.
 
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