.:: Traje Gaúcho - 1750 / 1820
 
Então, de peças da indumentária ibérica, de peças da indumentária indígena e de outras tantas peças de sua própria invenção, o gaúcho do RS foi constituindo sua própria indumentária. O homem que empreitava as grandes arreadas de gado e as comandava pessoalmente, verdadeiro senhor de baraço e cutelo de suas gentes e primeiro caudilho rio-grandense, tinha mais dinheiro e se vestia melhor que os de mias. Foi ele também o primeiro estancieiro, fixando seus gados em rincões naturais e marcando e assinalando a sua fazenda. Trajava basicamente à européia, mas aos poucos foi introduzindo aportes ameríndios e próprios ao complexo de sua indumentária. Passou a usar também a bota de garrão de potro, invenção gauchesca típica. Igualmente o cinturão-guaiaca (“guaiaca” = bolsa, em quíchua), o lenço de pescoço, o pala indígena, a tira de pano prendendo os cabelos, o chapéu de pança de burro etc...

Patrão das Vacarias e Estancieira Gaúcha
 
Um bom retrato desse homem foi pintado pelo francês Jean Baptiste Debret, provavelmente sobre informações recebidas de São Borja, onde o grande artista não esteve. A mulher deste rico estancieiro, a qual também foi pintada por Debret, usava botinas fechadas, meias brancas ou de cor, longos vestidos de seda ou veludo, mantilha, xale ou sobrepeliz, grande travessa prendendo os cabelos e o infaltável leque.

Pois bem: os tradicionalistas quando pretendem reeditar esta indumentária, costumam cometer vários erros. O mais primário de todos é imaginar que mulher de travessa e mantilha tem que ser castelhana, ignorando que tais peças são tão espanholas como portuguesas. Depois, juntam ao traje dessa época, jóias e relógios modernos em anacronismo gritante. Ademais, por comodismo, criaram para traje masculino uma esdrúxula peça única, híbrida de bragas e ceroulas de crivo: fazem umas bragas, até os joelhos e daí para baixo costuram um palmo de perna de ceroulas, ao invés de usarem as bragas por cima das ceroulas de crivo. Com o truque empregado o resultado perde a aparência de bragas sobre ceroulas, porque a peça assim resultante não se estreita nos joelhos, como as bragas autênticas, que são amarradas à perna. E mesmo quando pretendem usar bragas sobre ceroulas, desconhecem as verdadeiras dimensões da peça, fazendo bragas ridiculamente curtas, a meia-coxa. Também costumam colocar à cintura umas estranhas faixas coloridas, com uma ponta pendente que nada tem haver com a tradição gaúcha. Ou ainda descuram de usar o jaleco e a jaqueta, ou o chapéu da época desse traje, com copa alta e abas curtas. E esquecem o pala. Ou usam à cintura guaiacas castelhanas, retovadas de moedas e “botones”, com vistosas “rastras” bem à frente.
 
Mas o pior de tudo é o colorido carnavalesco que empregam na feitura das bragas e da jaqueta, afeminando um tipo humano que foi sempre muito másculo até no seu ingênuo narcisismo, fruto da necessidade primitiva de se luzir entre seus pares. Aliás, não é por acaso que entre os gaúchos o homem tem aparência mais bizarra que a mulher, como o galo dono do terreiro, de chapéu tapeado, pala atirado para trás e tinindo as esporas... Mas daí a usar bragas amarelo-canário, violeta, bordô. Grená e rosa-choque, vai um abismo de distância. Em roupa gauchesca, como em tudo, discreção e comedimento antes de mais nada. O peão de vacarias, saído de tudo aquilo que sobrava, em termos humanos, da incipiente organização urbana da época – desertores do exército e da marinha, foragidos da justiça, renegados das tolderias trânsfugas missioneiros, brancos índios, negros e mestiços de toda a laia – não devota maiores cuidados às roupas. Seu traje se destinava a proteger o usuário e a não atrapalhar sua atividade precípua – cavalgar e caçar o gado. Freqüentemente, este gaúcho só usava dois palas: um enrolado como saia, da cintura aos joelhos, e o outro enfiado pela cabeça.
 Peão das Vacarias e China das Vacarias
 
As demais peça dependiam ou de engenho pessoal ou de dinheiro. As botas mais comuns eram as de garrão, que o próprio gaúcho sacava de vacas, burros e éguas raramente do potro que lhes deu o nome. Essas botas eram lonqueadas, ou perdiam o pêlo com o uso. Mas às vezes o pelo era resguardado e até mesmo se matavam mais de um animal para conseguir um par de botas manchadas, iguais. Em uso, as botas de garrão não duravam mais de dois meses.Normalmente, eram feitas com couro das pernas traseiras do animal, que dão botas maiores. Aquelas tiradas das patas dianteiras muitas vezes eram cortadas na ponta e no calcanhar, ficando o usuário com os dedos e o calcanhar de fora. Acima da barriga da perna, o homem ajustava essas botas, por meio de tentos, ou tranças. E houve também chamadas “botas-de-gato”, mais raras, feitas com o couro de gato-do-mato ou jaguatirica, tirando inteiro, com cabeça e tudo. Os dedos do pé do homem apareciam pela boca do bicho. Claro está que houve muito peão usando botas fortes, de sapateiro, por pacholice ou ostentação, mas tais casos foram compreensivelmente raros.
 
Quanto às rosetas, as esporas mais comuns eram as nazarenas e as chilenas, as primeiras proximamente européias, e as segundas americanas. As nazarenas devem o nome aos seus espinhos pontudos que lembram os cravos que martirizaram Nosso Senhor. E as hipertrofiadas chilenas devem o nome a semelhança com as tilintastes esporas do “huaso” do Chile. E aos poucos os ferreiros que montavam suas forjas por aqui começaram a criar novos tipos de esporas com garfos enormes, que chegavam quase aos dedos do pé.O peão das vacarias, por pobre e desinteressado, não era de muito luxo. Só usava ceroulas de crivo nas aglomerações urbanas.

No mais, andava de pernas nuas, como os índios. Seu chiripá já foi descrito: tinha a forma de saia e era meio aberto à frente, para facilitar a equitação e mesmo o caminhar do homem. Em pouco tempo esse chiripá assumia uma cor indistinta, de múgria – cor de esfregão. À cintura, faixa larga, negra, ou cinturão de bolsas, tipo guaiaca, adaptado para levar moedas, palhas e fumo e mais tarde cédulas, relógio e até pistola. Aliás, ainda hoje, a bolsa com tirante a meia-espalda, que os leiteiros costumam usar na fronteira-oeste, é chamada “guaiaca”.Ainda à cintura, as infaltáveis armas desse homem: as boleadeiras, a faca flamenga ou adaga e, mais raramente, o facão. Este era tão usado nos arreios que ganhou, por vezes, o nome de “facão caroneiro”. E sempre à mão a lança – de peleia ou de trabalho. Esta última ostentava uma lâmina em forma de meia-lua e se chamava “desjarretador” ou “garrocha”. Em ocasiões especiais o homem usava dois e mais pares de boleadeiras, à cintura e nos arreios.

Camisa, quando o peão contava com uma, era de algodão branco ou riscado, sem botões, apenas com cadarços nos punhos, com gola imensa e mangas largas. Pala, não faltava, comumente, o de lã chamado “bichará” – em cores naturais, e mais raramente o de algodão e o de seda, que aos poucos vão aparecendo. Logo também surge o poncho, redondo, de cor azul e forrado de baeta encarnada, provavelmente a partir das capas militares da época.

Embora os nomes “pala” e “poncho” se confundam com freqüência, usados um e outro para a mesma peça de indumentária, o certo é que o primeiro é proximamente indígena e o segundo inteiramente gauchesco, isto é, não veio da Europa nem da América indígena. E hoje os gaúchos rio-grandenses fazem perfeita distinção entre pala, poncho, bichará, pala-poncho e capa. Senão, veja-se:
 
Pala: de lã ou algodão, quando protege contra o frio, ou de seda, quando protege contra o calor. É sempre retangular, com franjas nos quatro lados. Freqüentemente ostenta listas retas, paralelas aos lados maiores do retângulo. A gola do pala é um simples talho, por onde o homem enfia o pescoço.

Poncho: de lã grossa, invariavelmente. Quase sempre é azul escuro, forrado de baeta colorada, mas existem também ponchos negros, com forro de baeta amarelada com xadrez vede e ainda ponchos de cor cinza, com forro de baeta encarnada. O poncho tem a forma circular ou ovalada. Como o pala, é produzido pela indústria. O poncho só protege contra o frio e a chuva. Não tem franjas, nem listas. A gola é alta, abotoada e há um peitilho na frente do poncho. A propósito, cumpre assinalar e presença de ponchos de borracha e, mais recentemente, de napa ou plástico, entre nós.

Bichará:
é um pala feito em teares manuais, de tecelagem folclórica, com a lã natural de ovelha, quase sempre nas cores naturais dessa lã. Raramente com cores químicas. O bichará é feito de dois panos, tecidos um de cada vez, e que fora do tear são costurados um ao outro deixando apenas uma abertura ao centro para a cabeça do homem. Ultimamente surgiram bicharás com gola de poncho, em lã e até de peles. O bichará só protege contra o frio.

Pala-poncho: também chamado de poncho-pala, é um pala maior, de lã industrializada, de forma semi-retangular com os cantos levemente arredondados, e com franjas ao redor. O pala-poncho também só protege contra o frio. Não se trata de invenção moderna, pois já existia no fim do século passado.

Capa: dos dois grandes abrigos usados pelo homem em todas as culturas conhecidas, um tem um talho no meio, por onde o portador enfia a cabeça (o pala) e o outro o homem simplesmente enrola em torno de si (o manto). A capa se filia à corrente dos mantos e entre nós foi introduzida, ao que consta, no começo do século vinte, a partir da famosa capa espanhola, militar ou coimbrã. A nossa capa campeira, também chamada colonial, sempre é de lã escura, forrada só até o meio por baeta chara, aberta em toda a frente, onde tem botões de cima abaixo, e tendo nos dois lódãos aberturas com um botão por onde o homem pode tirar os braços. A capa tem gola como o poncho, que poder ser levantada para proteger as orelhas. É sempre de confecção industrial e protege contra o frio e contra a chuva. A cor mais comum nas capas é o negro, mas há capas colegiais em azul escuro e até em cor marrom.

Mas voltando ao peão das vacarias: à cabeça, a fita dos índios prendendo os cabelos que os platinos chama “vincha”, palavra estranha ao nosso linguajar, e que os modernos “hippies” chamam “fita apache”, e também o lenço Omo touca, atado à nuca. Chapéu, quando usava, era de palha (mais comum), de feltro (mais raro) e talvez o de couro cru, chamado de “pança de burro”, feito com um retalho circular do couro da barriga do muar, moldado na cabeça de um palanque. Não se conhecem, ainda, documentos a respeito do uso do chapéu de pança-de-burro entre os gaúchos rio-grandenses, mas é presumível tenha sido usado tanto na Banda Oriental como Rio Grande, face os costumes comuns da época.

O chapéu, qualquer que fosse o feitio, era preso com barbicacho sob o queixo ou nariz. Esse barbicacho era normalmente traçado em delicados tentos de couro cru, tirados de lonca ou então eram simples cordões de seda, torcidas, terminando em borda que caía para o lado direito. Mais raramente, de sola e fivela.

Ainda nessa época aparece o “cingidor”, que foi como Nicolau Dreys chamou o nosso tirador. A mulher desse homem como é natural supor, vestia pobremente: nada mais que uma saia comprida, rodada, e uma blusa. A saia era sempre de cor pesada, tendendo para o escuro, e a blusa ou era branca ou esbranquiçada com uso. Pés e pernas descobertas, o mais das vezes. Branca, mestiça ou índia, a mulher era raridade nas vacarias e nos rancheiros, muitas vezes disputada de adaga na mão. Não precisava se enfeitar muito para ser pretendida... Por baixo da sai, as calças femininas da época, tipo bombanchinhas.

Como os trajes mais ricos, esses foram usados desde o nascer do gaúcho até 1820, aproximadamente. Deles ficaram para nós descrições preciosas de Nicolau Drys e Saint Hilaire e pinturas de Debret. No Uruguai, Emeric Vidal e Juan Manuel Blanes deixaram belas aquarelas e óleos documentando essa época.

Os erros mais comuns, cometidos pelos tradicionalistas contra essa indumentária, dizem respeito, como sempre, às cores aberrantes, sobretudo no chiripá, que foi a essa época uma sofrida peça destinada a mal cobrir as vergonhas do homem e que agora aparece em verde-exorcista, grená-hemptise e quejandos. Ademais, esse chiripá, que era uma saia enrolada da cintura aos joelhos, com abertura de cima abaixo, bem na frente, começa agora a ser usado com a abertura ao lado, o que lhe dá uma aparência "hippie”. E seu tamanho foi reduzido a um mínimo, transformando em autêntico tapa-rabo de luxo.

Mas não param aí, os erros. Os tradicionalistas, desinformados e ingênuos, e as “vedettes” do tradicionalismo, colocam à cintura uma faixa branca, mais enfeitada que pilcha de castelhano, com larga ponta pendente. Pala não gostam de usar, para ficarem bem soltos... Se o chapéu de palha simplesmente não aparece, que dirá do pança-de-burro?

E volta a aparecer a importuna “rastra” castelhana, que os narcisos crioulos adoram tanto a ponto de inventar uma “rastra” de couro trançado!

A bota de garrão de potro, ideal para completar esse traje, quando aparece entre os tradicionalistas... é com as bombachas!
 
Fonte texto / Imagens adaptadas de: Antonio Augusto Fagundes - Indumentária Gaúcha. 86p.
voltar
84p.
© Copyright 2004, site www.sougaucho.com.br - Todos os direitos reservados - Proibida a reprodução.