.:: Traje Gaúcho - 1820 / 1965
 
O período histórico dominado por um novo tipo de chiripá que substitui o anterior de forma de saia. Este obviamente não era adequado à equitação, mas sim a típica indumentária do pedestre, feita para o homem que anda a pé. Já o novo chiripá, em forma de grande fralda passada por entre as pernas, adapta-se bem no ato de cavalgar e essa é certamente a explicação para o seu aparecimento entre os gaúchos de três pátrias (Brasil – Uruguai – Argentina). Assim, fique desde já claro que o chiripá primitivo, o de saia, era indígena. Já o novo chiripá, de fralda, é inteiramente gauchesco. É um traje essencialmente funcional, nem muito curto nem muito comprido, tendo o joelho por limite, ao cobri-lo. As esporas do complexo da indumentária dominada pelo chiripá que chamamos “farroupilha”, não só para diferencia-lo do anterior mas porque foi a peça mais usada pelos farrapos (1835/1845), são as chinelas.

  Gaúcho Farroupilha e Mulher Gaúcha
 
As nazarenas e os novos tipos inventados pelos ferreiros da campanha. As botas são ainda a bota forte, comum, a bota russilhona e a bota de garrão, inteira ou de meio-pé. As longas ceroulas são enfiadas no cano da bota ou, quando por fora, mostram nas extremidades cirvos, rendas e franjas. À cintura, faixa preta e guaiaca, de uma ou duas fivelas. Camisa sem botões, de gola e mangas largas. Jaleco, de lã ou mesmo veludo, e às vezes a jaqueta, com gola e manga de casaco, terminando na cintura, fechada à frente por grandes botões ou moedas. Ao pescoço, lenço de seda, já nas cores mais populares – o branco e o vermelho. Mas muitas vezes em outras cores e com padronagem enxadrezada. Em caso de luto – preto. Com luto aliviado, preto com “petit-pois”, carijó ou xadrez de preto e branco. Mas isso em caso de luto. Aos ombros, pala, bichará ou poncho. À cabeça, a fita dos índios ou o lenço amarrado à pirata e, se for o caso, chapéu de feltro com aba rasteira e copa alta, ou chapéu de palha, sempre presos por barbicacho. Os cabelos do gaúcho, durante muito tempo, foram compridos, tipo índio. Havia quem os trançasse atando as pontas com fitas, o mesmo que as chinas. Até na Guerra do Paraguai (1865/1870) aparece gaúcho de trança e a única fotografia de um gaúcho autentico usando chiripá, no começo deste século, em poder do autos destas notas, mostra o homem com duas pequenas tranças laterais na comprida melena moura.
 
A mulher nesta época (1820/1870) popularizou um tipo de indumentária na base da saia e do casaquinho, este com discretos enfeites de rendas. As pernas femininas sempre cobertas por meias salvo na intimidade do lar – e o cabelo solto ou trançado para as moças, e preso, em coque, para as senhoras. Sapatos fechados e discretos. Jóias? Um simples camafeu, ou broche, fechando a gola do casaquinho. Ao pescoço, muitas vezes, o fichú, pequeno triângulo de seda, crochê, etc., com as pontas cruzadas fechadas por um broche. Mais rico ou mais pobre, esse foi o traje padrão da mulher do Rio Grande do Sul nessa época. Simples, não é?

Para os tradicionalistas desavisados não o entendem assim. No traje masculino, transformam a sóbria ceroula de crivo em festival de rendas e campânulas que fariam corar de inveja uma rumbeira cubana. Sabendo que no passado alguns gaúchos usavam ceroulas de crivo, uma sobre a outra, gostam de costurar dois rendados – e até mais! – nas extremidades dessa peça e ainda alargam desmesuradamente a boca das ceroulas para que as rendas se sacudam bastante na hora de dançar...

E o chiripá farroupilha? Coitado, foi debruado em seda multicolorida – até com as cores do Rio Grande – e bordado de florezinhas multicolores. E encurtado até parecer uma tanga. Ou então, colocado de viés, para afunilar bem nas penas. Claro, nós sabemos que os “compadritos” periféricos de Montevidéu usaram até chalé de china como chiripá, e que os paraguaios de Estigarribia – descritos pelo Conde d’Eu – saquearam as residências familiares em Uruguaiana e transformaram em chiripá o chale das senhoras uruguaienses. E também que os Podestá, no circo, e Carlos Gardel, no palco, coloriram o chiripá dos “compadritos” para efeitos cênicos. Mas o tradicionalista não têm esse direito. Por definição, ele deve ser o guardião da pureza daquilo que é tradicional entre nós. E o chiripá tradicional era de merino, ou então feito de um pala. No mais. Discreto e maculo.

Também na composição deste traje estão aparecendo as coloridas faixas argentinas e os “tiradores’ com "rastra”... e até relógio de pulso, em anacronismo absurdo. E as cores continuam o festival carnavalesco. Imagine-se o que pensaria um gaúcho farroupilha verdadeiro ao ver essa autentica caricatura!

Na mulher, os erros mais comuns são a pintura exagerada, as bugigangas baratas que fazem o papel de jóias, o relógio, a pulseira, o sapato moderninho, as pernas nuas e um comportamento freqüentemente estouvado e espalhafatoso, contrastando com o recato da verdadeira mulher gaúcha, sem prejuízo da sua graça natural.
 
Fonte texto / Imagens adaptadas de: Antonio Augusto Fagundes - Indumentária Gaúcha. 86p.
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84p.
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