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| .:: Traje Gaúcho - 1965 até hoje |
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| Coincidindo em traços gerais com a Guerra do Paraguai surge no pampa uma peça de indumentária: os “calções bombachos”, as “calças bombachas” ou simplesmente as “bombachas”. No Uruguai, onde aparecem antes, são também chamados “calzones chinos”, porque tudo que fosse do Oriente, para os castelhanos era chinês.
Foram provavelmente os comerciantes ingleses que introduziram essas calças fofas em Montevidéu, sobras de guerras coloniais onde o inglês copiava livremente o traje dos povos conquistados. No caso a bombacha era turca, em sua origem, e não árabe ao contrário do que supôs Manoelito de Ornellas. Aliás, se fosse beduída, a bombacha teria aparecido já com o nascimento do gaúcho, e não um século mais tarde. No RS, a bombacha toma conta da campanha em pouco mais de vinte anos. Sim, porque começa a ser usada na Guerra do Paraguai, ou um pouquinho antes.
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Gaúcho atual e Prenda Tradicionalista |
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E na revolução de 1893, já não aparece quase ninguém de chiripá e sim de bombachas, como se pode ver das inúmeras fotografias que ficaram daqueles episódios sangrentos de nossa história. Foi então que se cantou a seguinte quadrinha:
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“A gaita matou a viola,
o fosf’re matou o isqueiro,
a bombacha,
o chiripá e a moda – o uso campeiro...” |
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Tudo, vale dizer, certíssimo: a Guerra do Paraguai foi o autêntico “divortium aquarum” do folclore rio-grandense. Surge com ela ou imediatamente após, a bombacha, a gaita, o fósforo, o aramado, a valsa, o truco, o regionalismo.
Morrem o chiripá, a viola, o gaudério, o ciclo dos fandangos, o classicismo literário etc...
A bombacha entrou no Rio Grande vinda da Banda Oriental e foi primeiro usada pelos pobres. À essa época, os estancieiros preferiam o “culotte” francês, que era mais “chic” – Deus o livre! – dançar em baile de respeito vestindo bombachas: o gaúcho viajava a cavalo léguas e léguas, trajando bombachas e trazendo as calças “cola-fina” cuidadosamente dobradas debaixo dos pelegos, para frisas. Mas na revolução de 93 já os caudilhos, quase todos estancieiros, usavam largamente as bombachas. Inclusive o Dr. Ângelo Dourado, baiano médico das forças de Gumercindo Saraiva, usava bombachas normalmente.
Deixou de usa-las uma vez, quando o peito do pé inflamou e o peso das bombachas fazia o ferimento doer. Então, conta ele próprio Aparício Saraiva fez com que ele trocasse as bombachas pelo chiripá – peça que o médico baiano não conhecia! – e o mesmo Aparício colocou a velha prenda no Dr. Dourado. Já em 1905 as bombachas são largamente usadas. Há uma fotografia desse ano, onde aparece o avô do autor destas notas, fazendeiro em Uruguaiana, Antônio Machado da Silva, usando bombachas brancas com enfeites laterais de favos de mel.
Aqui se esclarece outra dúvida: os botões laterais de enfeite de bombachas são invenção “moderna”, olhada de soslaio pelos verdadeiros gaúchos. Claro, sempre houve os exibidos, os faceiros e os narcisistas. Há documentos de casos especiais, de gaúchos até com libras de ouro , bolivianos de prata ou espelhidos dos lados das bombachas, mas foram exceções criticadas pelos próprios companheiros, seus contemporâneos.
Quando veste bombacha, nenhum gaúcho anda sem mangas de camisa, salvo entre seus iguais, na intimidade. Se não, pelo menos, usa colete. Melhorando, o casaco, em ambiente e com pessoas de mais distinção. E se é pobre, veste a blusa campeira, fofa na cintura e nos punhos, quase sempre do mesmo pano da bombacha. O casaco, muitas vezes era preto, usado em contraste com a bombacha branca. Esta era bem larga na fronteira e mais estreita, quase calça, na serra, mas sempre abotoada no tornozelo.
Os panos para as bombachas variavam, como variam até hoje. Se o gaúcho era mais rico, mandava o alfaiate fazer um conjunto de casemira, com bombachas e casaco. As cores, nesse caso eram comumente o azul marinho e o marrom. Preto, só em caso de luto. Bombachas mais simples eram feitas de brim, muitas vezes listado, que a indicada chamava couro de lagarto. As vezes a costureira fazia a bombacha e a camisa do mesmo brim, mas neste caso era uma camisa com bolsos a altura do peito. E era camisa mesmo enfiada para dentro das bombachas. Ou então, a velha blusa campeira, chamada simplesmente “campeira”, que sempre andou junto com a bombacha.
As esporas nazarenas rareiam. Usam-se mais chilenas, pequenas e de para os ricos, grandes e de ferro, para os despilchados. As botas são sempre as de sapataria, pretas e marrons e ainda muitas sussilhonas, sobretudo na revolução de 93. Na serra usam-se as chamadas “botas lajeanas”, com ou sem gaitinhas e quase sempre de cor marrom ou preta, com bolas laterais. Há também, botas de lona.
A propósito, o lavrador do Rio Grande sempre usou calçado especial: ou o tamanco açoriano, ou o “tamango”, campeiro, sapato grosseiro feito pelo próprio portador, de couro cru, pedaço de carona e até pelego, costurado muitas vezes com tentos e arame de quincha.
As bombachas são largas na fronteira e estreitas na serra e médias no planalto, quase sempre com favos de mel, também chamados ninhos ou favos de abelhas. À cintura, o fronteirista usa faixa preta, mas raramente vermelha ou azul-clara, de lã grossa, larga de quase palmo. O serrano e o planaltense não usam a faixa. E a guaiaca serrana. Aquela tem uma fivela ou duas, bolsa para o “cebola”, ao lódão esquerdo, bolsa maior às costas, para as “pelegas” meio-coldre, do lado de laçar, uma bolsinha menor para os “nicles”. E gente da fronteira tem medo de usar guaiaca peluda (lontra, gato-do-mato) porque diz que da azar. A Guaiaca serrana é muitas vezes peluda, o coldre é interiço e há um lugar especial do lado esquerdo do homem, para a faca, que o serrano usa pendurada aí. Ao contrário do fronteirista, que usa atravessada às costas, como os antigos índios minuanos.
A camisa é de algodão, morim, tricolina, pelúcia e até de brim.
Tudo de uma cor só – no máximo, de pano riscado, sobretudo umas camisas mui pobres, feitas de pano de saco de farinha ou açúcar.
Por cima – perto de senhoras ou homens de mais respeito – o colete, a campeira ou o casaco.O lenço de pescoço é atado por um nó, de oito maneiras diferentes, pelo menos incluindo duas de origem política: o nó farroupilha (1835/1845) e o nó federalista (1893/1896).
Também as cores dos lenços, além das políticas tradicionais (branco e vermelho) são acrescidas com mais uma tentativa política, que não pegou: o lenço verde, tentado pelos positivistas, seguidores do presidente Júlio de Castilhos, em 1893. E há lenços de fundo branco e com barra em xadrez vermelho e de fundo vermelho com barras em xadrez branco, a proclamarem a neutralidade política do usuário.
E lenços azuis celestes mais raros. O lenço à cabeça desaparece, o mesmo acontecendo com o chapéu de aba curta e copa alta. Agora, o que se usa é o chapéu de copa baixa e abas largas, uma e outra variando na forma ao gosto individual do gaúcho.Existem copas pontudas, tipo escoteiro, ainda hoje comuns em São Borja. Copas afundadas dos lados, ou transversalmente em cima.
As abas são usadas caídas em toda a roda do chapéu. Ou levantadas a frente, bem tapeadas, como “pra beijar santo em parede”. Levantadas atrás e a frente, ou só atrás ou abas muito largas, levantadas na frente. Para cima, dos dois lados, tipicamente do gaúcho serrano, que muitos por desavisados, pensam ser imitação do chapéu do “cow-boy”.
Enfim, existe gosto para tudo. E surge a boina, vasca, como as alpargatas, ainda hoje de uso e comum na fronteira.
Além do bichará, do pala de algodão ou de seda e do poncho, surgem mais duas peças importantes: o pala-poncho ou poncho-pala e a capa campeira.
Um destaque especial para o caso de luto: de um a seis meses o luto é fechado, isto é, completo, pela mulher, pelo marido, filhos ou pais da pessoa morta. A mulher usa meias pretas, severo vestido preto e um pano a cabeça. O homem usa botas pretas, bombachas pretas, camisa peta, lenço preto, casaco preto, chapéu preto e não faz a barba durante o período de luto, geralmente.
Quando se iniciou o Movimento Tradicionalista, com a fundação do “35’ Centro de Tradições Gaúchas, em Porto Alegre, a 24 de abril de 1948, os rapazes quando, algum tempo depois, filiou-se a primeira moça – sentiram a necessidade de criar um traje feminino que fizesse “pendant” com a brilhante indumentária masculina. E assim, consultando fotos antigas das próprias famílias e também inspirados no ‘traje de china” das tradicionalistas uruguaianas e até mesmo – forçoso é reconhecer – no vestido “caipira”, que eles combatiam, criaram o hoje famoso “vestido de prenda”, dentro dos pressupostos válidos da indumentária feminina mais simples do Rio Grande – a de chita – ao fim do século passado e começos deste. Apesar de ser uma criação tradicionalista, o vestido de prenda conservou a padronagem e a sobriedade do vestido padrão da mulher gaúcha.
E é exatamente na indumentária relativa a este período - de 1870 até o presente – que os tradicionalistas cometem os maiores desatinos.
Já as esporas dos conjuntos de danças muitas vezes aparecem fantasiadas, para não ferir ou cortar as botas. E as botas de garrão às vezes são usadas com bombachas, o que é um erro, e para durarem mais, são com solados feitos por sapateiros! Pouquíssimos tradicionalistas usam as botas russilhonas. Mas é nos colégios que os piores absurdos são cometidos: chapéus e botas de “Rov Rogers”, ou botas de borracha, aparecem a dois por três, com a cumplicidade ingênua das professoras, muitas vezes por dificuldades econômicas.
E que dizer das bombachas? Ainda hoje, depois de quase trinta anos, ainda aparecem tradicionalistas usando bombachas enfeitadas com os botões sobre favos-de-mel, reproduzindo as inicias ou o nome inteiro do portador. E o pior agora estão usando em vez dos favos-de-mel, umas franjinhas absolutamente inusitadas.
A correta bombacha é de brim ou mesmo casemira, lisa ou riscada, de cós largo, sem alças para a cinta “cola-fina” e só tem dois bolsos grandes, laterais. Saiu disso, tudo o mais é bobagem. Bombachas brancas e claras, para ocasiões festivas, sóbrias e escuras, para viagens ou trabalho. Mas pretas, só em caso de luto. E agora criou-se entre os tradicionalistas uma verdadeiras “legião do Zorro”, de botas, bombachas e camisas pretas, contrastando com as faixas coloridas, os lenços brancos e maragatos. Quer dizer: parecem estar de luto, mas quebram este com o branco ou vermelho. E ademais, usam esse traje para festas. Estes tradicionalistas não se dão conta de que assim estão desservindo a tradição do Rio Grande. Gente importante, que devia dar o bom exemplo, são os primeiros a errar. Inclusive líderes tradicionalistas.
À cintura, todos os tipos de faixas que possam encontrar: uruguaias, argentinas (correntinas, pampas, santiaquenhas) paraguaias, chilenas... menos faixas brasileiras. E gente municípios onde o gaúcho não usa faixa, tradicionalmente, está “ensinando” o gaúcho autêntico a descaracterizar a sau indumentária.
As guaiacas castelhanas, recamadas de moedas e com vistosa “rastra” andam aí na cintura dos líderes e “professores” de tradicionalismo. Esses tradicionalistas estão entregando aos castelhanos, de graça, o que seus avós defenderam durante quase duzentos anos: a nossa opção e o nosso direito de ser brasileiros. Eles, ao contrário, fazem questão de se passar por uruguaios e argentinos, abandonando aquilo que nos faz iguais a nós mesmos, e ainda assim, dentro de nossas fronteiras, com diferenças regionais. Esquecem a velha lição de que o regional é universal e que escrever sobre o seu pátio estará escrevendo para o mundo.
As camisas, por qualquer descuido, estão aparecendo em vistosa padronagem xadrez e até mesmo em seda.
Há centros de tradições gaúchas criando lenços próprios, verdes ou amarelos, muitas vezes fazendo par com a faixa da mesma cor. Já houve, inclusive, centros que faziam lenços tricolores, com os padrões sagrados do Rio Grande.
Isso não é tradição. Isso é palhaçada, fantasia, carnaval, patacoada. Depois, quando qualquer “cola-fina” ridiculariza o tradicionalismo – e nesses casso, com absoluta razão – esses maus tradicionalistas são os primeiros a reclamar resposta em jornal, carta aberta e coisas do gênero.
A blusa campeira praticamente é ignorada pelos tradicionalistas, que vão a bailes e festas em mangas de camisa e de xerenga à cintura. Casaco? Raramente. Felizmente o colete ainda não se perdeu nessa barafunda.
Os barbicachos aparecem em plástico brilhante, ou então mesmo quando traçados em couro cru, com tantos penduricalhos (miniaturas de boleadeiras, laços, rebenques, estribos, serigote, corona, pipa d’água e égua com cria) que mais parece uma árvore de natal. Os tiradores de muitos tradicionalistas seguem o mesmo caminho: solo brilhante, nonato salino ou então tiradores com pinturas de cenas campeiras, miniaturas de tarecos, etc. E o verdadeiro tirador é uma rude peça para agüentar a fricção do laço e proteger o homem em certos trabalhos de mangueira e brete. Curto e com flecos muito compridos, na Serra, com dois ou três palmos, até. De pontas arredondadas, no Planalto. Com ou sem flecos e quase arrastando no chão, em Bagé. De bordas retas e com flecos de meio palmo, na Fronteira. Isso é tirador gaúcho. Sem enfeites, feito para o trabalho, as vezes um coraçãozinho do mesmo couro tapando o furo e bala que matou o pardo ou o capicho.
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